quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A encruzilhada

Os gatos...

Os dois gatos continuavam encarando o homem enquanto este tentava há muito tempo escolher que caminho seguir. O homem estava numa encruzilhada.
Depois de pensar e tentar sem sucesso, deduzir qual era o melhor caminho, o homem fez menção de voltar...
- Você pode ir para a direita ou para a esquerda, mas não pode e nem deve voltar atrás. – Falou uma voz que parecia vir de algum lugar perto de onde estavam os gatos... ou dos próprios gatos.
Assustado, o homem virou de volta para os dois caminhos e para os gatos... não, não era possível, ele pensou, gatos não falam... e estes estavam na mesma posição de quando ele havia se virado. Depois de quase um minuto encarando os gatos, o homem percebeu que eles realmente não podiam ter falado... ‘gatos não falam, mesmo gatos que ficam parados em encruzilhadas desertas... ’. Pensando nisso, o homem resolveu ir embora pelo caminho que ele havia chegado... melhor que correr riscos.
- Já dissemos forasteiro, direita ou esquerda, não há como voltar...
Mais uma vez o homem vira assustado e vê que os gatos continuam na mesma posição e olhando para ele.
- Vocês falaram comigo? – Ele pergunta se sentindo idiota por estar falando com gatos
Depois de mais alguns segundos encarando o homem, o gato que parecia mais velho respondeu.
- Está vendo outro forasteiro por aqui? – Sim, pensou o homem, os gatos falam... então deve ser um sonho.
- Eu estou sonhando?
- Não costumamos responder uma pergunta com outra pergunta por aqui, forasteiro. – Falou o gato mais jovem. – Mas sim, isso é um sonho... ou não, isso não é um sonho.
- Se não é um sonho, como vocês falam? E que lugar é esse? Como eu cheguei aqui?
- Você tem muitas perguntas, forasteiro, e não terá nenhuma resposta... só o que podemos avisar é isso, não há como voltar, escolha seu caminho e siga em frente. – O gato mais velho falou mais uma vez.
- Bom, se é assim, como eu posso saber que caminho tomar, e qual será o melhor?
- Você não sabe, não pode saber... – respondeu o gato jovem.
- Só pode esperar que seja um bom caminho. - Completou o gato mais velho, e com isso os dois se calaram.
Depois de refletir um pouco sobre que caminho escolher, o homem hesitante escolheu o caminho da esquerda e começou a andar sem olhar para trás.

A velha...

Depois de caminhar o que poderia ser uma hora ou um dia, o homem encontrou uma velha que caminhava na direção contrária. Quando ela chegou mais perto, o homem pode ver que na verdade não era uma velha... era uma pessoa que aparentava ter vivido muito (sim, existe uma grande diferença entre ser velho e ter vivido muito).
- Olá, jovem forasteiro...
- Olá, bom dia...
- Pode ser pra você... mas pra mim não é um dia muito bom. Você não teria visto dois gatos por aqui? Creio que são os únicos gatos dessa região.
- Sim, na verdade eles estavam parados na encruzilhada que fica lá atrás... pode ter sido impressão, mas eu acho que eles...
- Acha que eles falaram com você? Sim... eles têm esse costume, ficam naquela encruzilhada o dia todo falando com as pessoas... Mas diga-me estrangeiro, para onde está indo?
- Não sei... estou seguindo em frente... sempre em frente.Tentando entender que lugar é esse...
- Ora, muito bom... dizem que é sempre bom seguir em frente... e o que espera encontrar seguindo em frente?
- Não sei... respostas, talvez...
- Oh... sim, você encontrará respostas... talvez não sejam as que procura, mas serão respostas... tome, uma recompensa por encontrar meus gatos. – A mulher pegou a mão do homem e pôs algo nela, quando ele olhou, era uma moeda antiga.
- Obrigado... mas o que eu faço com isso?
- Na hora você saberá... adeus forasteiro, espero que encontre as respostas que busca, faça uma boa viagem... – e falando isso, a velha literalmente sumiu no ar.
Enquanto caminhava, o homem pensava no que a mulher havia falado e no quanto aquilo o abalou, nisso, ele escuta uma voz um tanto familiar...
- Olá estranho, é um tanto incômodo encontrá-lo aqui novamente...
Quando ele olhou para o lado, um homem caminhava ao lado dele, um homem com a pele branca como a lua e que trajava vestes negras como a noite... ele não sabia o nome do homem, mas algo dizia que eles já haviam se encontrado várias vezes...

Despertar...


- Olá... desculpe, mas já não nos encontramos antes? Seu rosto me parece familiar...
- Não, você nunca me viu pessoalmente, mas de certa forma, todos conhecem meu rosto... – O estranho tinha uma voz fria e sepulcral.
- Você pode me dizer onde eu estou?
- Sim, você está em meus domínios, meu reino... e antes que pergunte, aquela mulher com quem você conversava é minha irmã... tenha cuidado com ela, humano...
- Como assim, cuidado? E porque você me chama de humano...
- Porque diferente de nós, você é humano... e é chegada a hora de ir... – Nisso, o homem pegou um punhado de areia dentro de uma bolsa e soprou nos olhos do estrangeiro.
Enquanto tossia e lutava para enxergar, ele pode ouvir a voz distante do homem recomendando mais uma vez que tivesse cuidado com sua irmã, então o estrangeiro acordou.
***
- E é isso... faz quase duas semanas que eu tenho o mesmo sonho... duas semanas que eu tomo o mesmo caminho, duas semanas que eu sempre encontro a mulher com a moeda.– O homem falou enquanto olhava o café que esfriava na própria xícara.
- Faz duas semanas desde que ela... que ela foi embora. Pode estar relacionado. Principalmente essa coisa da moeda antiga e tal. - Respondeu a mulher.
- Pode ser... eu nem tenho pensado muito nisso. Ontem recebi uma ligação... ninguém falou nada, mas eu acho que era ela. Desligou depois de alguns segundos...
- Você acha que era ela ou queria que fosse?
- Não sei... não sei mais nada. – o homem respondeu enquanto deixava o dinheiro na mesa e pegava o casaco pra sair. A mulher fez o mesmo e o acompanhou até a rua.
O barulho do trânsito e da construção ali perto se misturou com as imagens do sonho que ainda se projetavam na mente do homem, ele pôs a mão no bolso direito do casaco e sentiu a moeda que continuava lá. Porque ela tinha ido embora sem nem se despedir? Porque deixou aquela moeda... porque?
Enquanto pensava nisso, o homem começou a andar e mal percebeu o gato que atravessou seu caminho...
- Eu tenho que voltar pro escritório. Mais tarde o pessoal vai se reunir pra tomar umas cervejas... vê se aparece. – a mulher falou e se despediu com um beijo no rosto.
Quando o semáforo ficou verde, o homem começou a atravessar a rua, quando estava chegando do outro lado, percebeu um gato olhando diretamente para ele, não o gato que havia passado por ele antes, mesmo assim, era vagamente familiar...
Ao chegar do outro lado, uma mulher segurava um gato no colo e outro estava sentado ao seu lado, a mulher o cumprimentou.
- Olá forasteiro... que bom revê-lo... – Era a velha da estrada, mas agora ela parecia muito mais jovem e até mais bonita.
- Olá, de novo... eu estou sonhando?
- Não... você não está no reino de meu irmão.
Só então o homem percebeu que aquele lugar era mais sombrio que no sonho... ele estava na margem de um rio, mas devia ser um rio muito grande pois não se podia ver a outra margem. Alguém vinha navegando num tipo de gôndola na direção deles.
- Eu falei para não se aproximar dela, mortal. – O ser pálido estava ali mais uma vez, agora via-se a semelhança entre ele e sua irmã... a cor da pele e dos cabelos.
- Mas como assim? Eu não entendo... O que aconteceu? – respondeu o mortal.
- Você ansiava por isso e conseguiu... você se encontrou com minha irmã. Ela lhe deu a moeda... o barqueiro se aproxima.
Então o homem entendeu, as histórias que ele ouvia quando era jovem, os perpétuos, a travessia, tudo fazia sentido agora... ele estava diante dos perpétuos, o senhor do sonhar e sua irmã, morte.
- Agora o sonho faz sentido... esse é o fim da estrada esquerda. – falou o homem enquanto olhava a moeda em sua mão. – Posso fazer uma última pergunta?
- Sim, só não sei se poderemos responder. – Falou mulher.
- O que havia no caminho da direita? O que poderia ter acontecido?
- Nunca saberemos... talvez a vida, talvez outras respostas. Não adianta pensar nisso... – respondeu a morte.
E sem falar mais nada, o homem deu as costas aos perpétuos, entrou no barco e começou sua viagem pelo estíge.
Enquanto observava o barco deslizar silenciosamente pelo rio, sonho pensava no quanto os mortais podem ser incompreensíveis.
Em frente à cafeteria, as pessoas se perguntavam como aquela viga poderia ter caído tão longe do prédio e acertado o rapaz que atravessava a rua. A única coisa que sua amiga pensou enquanto chorava, foi que agora ele finalmente descansaria e aquela mulher nunca mais o atormentaria.
Mas ninguém notou uma moeda antiga que repousava no chão, ao lado do cadáver...

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